ondemoraavelhice
EPISÓDIO 1
OS VELHOS SÃO OS OUTROS
O primeiro episódio traz uma entrevista com Jorge Felix, professor de Gerontologia da USP e autor do livro "Economia da Longevidade: o envelhecimento populacional muito além da previdência" sobre o envelhecimento da população brasileira, e entrevistas no Centro de Acolhida Especial para Idosos Morada São João.
Roteiro, captação e edição: Beatriz Herminio
Transcrição
TEC - Chill - Disco Ultralounge
SON - Atanailton (5:16 - 5:41)
“Eu tô envelhecendo já. Eu pra mim no dia que Deus quiser me levar eu tô pronto. Eu não tenho medo de envelhecer não. Porque o envelhecimento é pra todos nós. Eu pra mim, eu não esquento minha cabeça por esse negócio não.”
LOC
No centro de São Paulo, no bairro dos Campos Elíseos, a Morada São João funciona em um prédio da primeira metade do século 20.
Inaugurado em 1929, o edifício Oscar Souza Pinto funcionou como um prédio residencial de frente para o largo do arouche na república até 1953.
A partir daí, passou a abrigar o Hotel Atlântico até 98.
No ano 2000, o prédio foi tombado e, anos depois, locado para a prefeitura.
Neste edifício onde um dia funcionou um hotel com 60 suítes, vivem hoje 210 pessoas.
O local é um centro de acolhida especial para idosos e está em funcionamento desde 2011.
SON - Atanailton (2:21 - 2:36)
“Eu trabalhava em restaurante. A patroa vendeu o restaurante. Eu não tinha lugar pra morar. Não queria morar em casa de parente. Aí procurei assistência social. Ali na 9 de julho.”
LOC
Esse é o Atanailton Duarte. Antes de completar 60 anos, ele passou por diversas moradas na cidade de São Paulo até chegar à Avenida São João.
SON - Atanailton (0:07 - 0:40 + 1:43 - 2:21)
“Eu tô com 64, vou fazer 65 dia 12 de agosto desse ano agora. Eu vim pra aqui em 2022. Aqui, essa casa, é uma mãe. Aqui, a gente tem cinco refeições. Tem o café, tem o almoço, tem o café três horas, o almoço, a janta, cinco horas, e nove horas tem o chá.”
“Eu sou baiano. Eu sou do interior da Bahia. Mutuípe. Você veio pra São Paulo quando? Ah, faz muitos anos. Eu tô com 40 anos aqui já, em São Paulo. Perdi minha mãe. Tenho minhas quatro irmãs. Uma mora aqui na Tamandaré. Uma no Rio de Janeiro. Uma aqui na Aparecida do Norte. A outra mora em Salvador. Perdi minha mãe com 103 anos. Meu pai morreu novo, com 51 anos. Meu irmão caçula com 18. E eu moro aqui.”
LOC
O atendimento nos centros de acolhida especial para idosos é feito por encaminhamento de serviços de assistência social.
A maioria dos atendidos procura assistência por estar em situação de rua, mas há também casos de dificuldade financeira, conflitos familiares e situação de abandono.
Acessam esses centros para idosos pessoas acima dos 60 anos, e não existe um limite de idade ou de tempo que se pode morar nesses lugares.
Hoje, os mais velhos na São João têm cerca de 90 anos.
O Martílio é um deles.
SON - Martílio (0:49 - 1:10)
“Quantos anos o senhor tem? Estou chegando cem. Até somar, que eu nem lembro mais, mas eu nasci em 1935… 21 de agosto de 1931.”
LOC
A fala pode ser um pouco difícil de entender por áudio, então vou contar o que ouvi em uma conversa que tivemos numa sala no segundo andar da Morada São João.
Eu digo que ele tem cerca de 90 anos porque ele mesmo ficou um pouco confuso com as datas, mas me contou que chegou na Morada São João três anos depois da sua inauguração em 2011.
SON - Martílio (17:09 - 17:18)
“Onde que o senhor nasceu? Eu nasci no Ipirá, Bahia. Mas a minha vida foi mais viajando pelo mundo. Aqui os filhos nasceram aqui.”
LOC
Nascido na cidade de Ipirá, na Bahia, ele diz que trabalhou a vida toda como motorista, e que a vida foi mais viajando pelo mundo.
Na conversa, ele até está olhando pra mim, mas diz que não enxerga nada. Mesmo assim, sai e anda sozinho por aí no dia a dia.
Diz que o filho reclama, pede pra ele ficar em casa, afinal, o pessoal cuida tão bem dele.
Mas ele fala “eu vou cuidar da minha vida, vou andar… e questiona.. (?) vou ficar sem sair?”
SON - Martílio (3:12 - 3:25)
“E aqui era hotel, antigamente, se vinha uns cantor, vinha uns cantor para aqui, a gente hospedava quem não tinha carreta. Então, vocês que são todos novinhos, não sabem dessas coisas, não.”
LOC
Ele conta sobre quando o prédio era um hotel por onde passavam choferes e cantores.
E que, aquilo que os moradores do centro de acolhida chamam de apartamentos, eram quartos de hotel décadas atrás.
Para ele, esse é o tipo de história que essa geração de hoje não conhece.
TEC - Confused state
Tanto o Atanailton quanto o Martílio vivem na Década do Envelhecimento Saudável, declarada pela ONU.
A Organização das Nações Unidas sugere que o período de 2021 a 2030 seja de colaboração global para melhorar a vida dos idosos, de suas famílias e das comunidades em que vivem.
Essa é uma parcela da população que cresce em ritmo acelerado no Brasil.
O IBGE aponta que, de 2000 a 2024, a proporção de idosos na população brasileira quase duplicou.
Em números totais, ela foi de cerca de 15 milhões para 32 milhões de idosos.
O IBGE também projeta que serão 75,3 milhões de idosos em 2070. Até lá, o número de pessoas acima dos 80 anos de idade pode saltar em cinco vezes.
Meu nome é Beatriz Herminio e este é o primeiro episódio do Onde Mora a Velhice, um podcast sobre os fatores que estão por trás do envelhecimento saudável de uma população.
TEC - vinheta do podcast
LOC
No critério da Organização Mundial da Saúde, são consideradas idosas pessoas acima dos 65 anos nos países desenvolvidos. E nos países em desenvolvimento, como o Brasil, são idosos aqueles que têm 60 anos ou mais.
Segundo projeção do IBGE, o número de idosos vai ultrapassar o total de crianças entre zero e 14 anos no Brasil em 2030, marcando o envelhecimento acelerado da população. Teremos mais idosos do que crianças.
Professor de gerontologia na USP e autor do livro Economia da longevidade: O envelhecimento populacional muito além da previdência, Jorge Félix explica alguns fatores determinantes para essa situação de envelhecimento populacional.
Afinal, (?) o envelhecimento da população brasileira é uma realidade hoje, ou estamos falando de futuro?
SON - Jorge Felix (0:23 - 0:42)
“A preocupação com o envelhecimento já é uma realidade dos nossos dias, nós já estamos vivendo esse processo. O mundo inteiro está envelhecendo, o que diferencia o Brasil é o ritmo desse envelhecimento. O Brasil está envelhecendo muito rapidamente.”
LOC
O envelhecimento da população é determinado por dois índices: a taxa de fecundidade e a expectativa de vida. A taxa de fecundidade do país mede o número de filhos por mulher, que atualmente é de 1,57.
SON - Jorge Felix (1:12 - 2:14)
“É uma taxa considerada muito baixa, uma taxa de países europeus. O ideal para a reposição da população são 2,1 filhos por mulher, e isso acontece com o comitante ao mesmo tempo, e o aumento da expectativa de vida. Então nós temos aí uma expectativa de vida crescente, isso é muito bom, mostra que nós estamos atendendo a população principalmente na questão da saúde. Então quando você tem a queda na taxa de fecundidade e o aumento da expectativa de vida, você tem um envelhecimento da população, e isso já se dá, o Brasil tem aí 33 milhões de idosos hoje, já são 16 por cento da população.”
LOC
Mas o envelhecimento não atinge o país de forma igual.
Hoje, as regiões sul e sudeste mostram sinais claros de envelhecimento populacional, com uma pirâmide etária estreita na base e larga no topo, isto é, com menos jovens. Já no norte do país, a pirâmide tem base larga e topo estreito. Isso indica uma população mais jovem, com uma proporção menor de idosos e com altas taxas de natalidade, ou seja, com muitos nascimentos por ano.
A expectativa de vida também não é a mesma. Hoje, se vive até os 77 anos no Brasil.
Mas a idade média em que as pessoas morrem varia. Em Belo Horizonte, Minas Gerais, a média de idade ao morrer é de 72 anos, a maior entre as cidades. Já em Boa Vista, em Roraima, essa média cai para 57 anos. Os dados foram divulgados em 2024 pelo Mapa da Desigualdade.
SON - Jorge Felix (3:27 - 4:25)
“Então, o fator que explica essa diferença, sobretudo, é o serviço de saúde. Você pode perceber, se nós pensarmos no mapa do Brasil, onde você tem ainda um sistema único de saúde, o SUS, menos avançado, com mais carências, com mais subfinanciamento por parte de todos os níveis de governo, as prefeituras, o governo estadual, o governo federal, você imediatamente tem uma taxa de fecundidade às vezes maior, você tem uma taxa de mortalidade infantil maior, você tem uma menor expectativa de vida. E isso desenha um quadro de muita desigualdade quando a gente fala de envelhecimento da população.”
LOC
Na cidade de São Paulo, algo bem parecido acontece. O mapa da desigualdade estima que, na capital paulista, exista uma diferença de 24 anos na expectativa de vida entre moradores da periferia e de um bairro nobre.
No Alto de Pinheiros, vive-se em média 82 anos, e no distrito Anhanguera, essa média é de 58 anos de idade.
SON - Jorge Felix (5:35 - 6:08)
“E isso se deve à oferta de saúde. Mas também cruza as outras desigualdades. A desigualdade étnica e racial, a desigualdade de renda. Então, a única desigualdade que se manifesta paradoxalmente oposta é a de gênero, porque a mulher vive mais do que o homem em todas as situações.”
LOC
As mulheres vivem mais que os homens em todo o mundo. No Brasil, são quase 80 anos de expectativa de vida para as mulheres e 73 para os homens.
SON - Jorge Felix (6:08 - 6:53)
“Isso se deve muito mais pela exposição à violência. Tanto a violência urbana, como a violência do trânsito, como violências, vamos dizer assim, provocadas. O homem compra mais risco nas suas atividades e isso acaba refletindo na expectativa de vida bastante desigual entre homens e mulheres.”
LOC
Olhando para os dados internacionais, vemos que o sul da Europa é a região mais velha do mundo, com 22 por cento da população sendo idosa, enquanto a África Subsaariana é a região mais jovem. Os dados são da organização internacional Population Reference Bureau, ou Escritório de Referência Populacional, em tradução livre.
A instituição aponta que, no Japão, 29 por cento da população tem 65 anos ou mais. Essa é a segunda população mais velha do mundo. Ela fica atrás somente de Mônaco, com 36 por cento da população composta por idosos.
Nesse cenário, uma máxima repetida por especialistas em envelhecimento e longevidade é a de que o Brasil envelheceu antes de ficar rico, e esse seria o nosso problema.
A ideia é que países ricos não precisam mais se preocupar com a garantia de acesso à educação ou à saúde universal, porque eles já têm esse caminho trilhado.
Mas, para Jorge, essa questão não é definidora da situação internacional.
SON - Jorge Felix (8:03 - 9:14)
“O modelo econômico que todo o planeta passou a viver depois, no finalzinho dos anos 70 e início dos anos 80, essa nova fase do liberalismo, eu chamo isso de capitalismo, de desconstrução, foi uma desconstrução de todo um ambiente econômico, um sistema econômico e financeiro que foi construído no pós-guerra. E que essa mentalidade do mundo que surgiu no pós-guerra, ela foi a base da construção do estado de bem-estar social, porque ela tinha como base a paz. E para você ter a paz e para você não eleger, sobretudo, líderes populistas, nacionalistas, de extrema direita, como foi o Hitler, que levou o mundo à guerra,você precisava atender as condições básicas da população. Ou seja, levar bem-estar social para a população.”
LOC
O estado de bem-estar social tem como característica a oferta de serviços básicos à população pelo Estado, como saúde, educação, habitação e emprego. No pós-guerra, essa política se destacou na Grã-Bretanha, França, Alemanha e Itália.
SON: Jorge Felix (9:31 - 10:21)
“Então, hoje você anda aqui, em Paris, você ainda vai ver uma imensa quantidade desses equipamentos, piscinas públicas, quase uns clubes, para o pessoal entender, uns mini-SESCs, parece um SESC, mas ele é pequenininho, e isso você tem aqui espalhado por muitos bairros ainda, por toda a França. Isso fazia parte dessa preocupação do estado, dessa responsabilidade do estado com o bem-estar de todas as pessoas, como eles diziam, do berço ao túmulo. Hoje você tem, o mundo inteiro vive sob um pensamento econômico que prega, que defende a redução do papel do estado.”
LOC
Essa redução do papel do Estado é a política de austeridade fiscal, que corta gastos públicos em nome da estabilidade financeira do Estado e redução de dívidas públicas.
SON - Jorge Felix (10:29 - 11:48)
“Então, isso reduziu imensamente a oferta de serviços de saúde, de benefícios de seguro-desemprego, cultura, educação, nem se fala. E agora, com as guerras que estão aí, a guerra na Ucrânia, a guerra na faixa de Gaza, você tem aí um movimento dos países europeus de reduzir ainda mais as verbas, os recursos que eles vão destinar à área social,para que eles façam um fundo de 800 bilhões de euros para a área de defesa, para armamento, para a indústria bélica. Então, o que hoje caracteriza esse processo de envelhecimento populacional é que todos os países estão enfrentando, claro que relativamente, os mesmos desafios. Nós não podemos ter ilusão, e isso seria analisar sem base científica, de que os países ricos, só por serem ricos, eles estão com os problemas do envelhecimento resolvido.”
LOC
O especialista explica que, com o fim do estado de bem-estar social, o estado passa a ser definido pelo que o Jorge e antropóloga e pesquisadora da Unicamp Guita Grin Debert chamam de “Estado fiador”.
SON - Jorge Felix (21:46 - 22:49)
O que é esse Estado? Olha, eu não consigo te dar saúde, educação, transporte subsidiado,cuidado a domicílio, eu não consigo oferecer instituições de longa permanência gratuita e de boa qualidade para você se mudar e viver a sua velhice nessas instituições, enfim, eu não consigo te garantir Estado de bem-estar social. Então, eu, Estado, assumo o papel de fiador. Olha, você vai lá no mercado financeiro, pega um empréstimo e eu sou o seu fiador. Que é o caso mais evidente do empréstimo consignado. Por que as pessoas pegam empréstimo consignado? É pra todas esses fatores de causalidade que eu coloquei aqui, principalmente para a saúde dela mesma e principalmente para a transferência intergeracional. Para filhos e filhas, netos e netas.
LOC
A ausência de responsabilidade do Estado sobre o bem-estar leva à individualização do envelhecimento. Debert chama isso de reprivatização da velhice em seu livro “A Reinvenção da Velhice”, que ganhou o prêmio Jabuti de literatura no ano 2000.
SON - Jorge Felix (26:24 - 26:47)
“A professora Grita se referia justamente a essa responsabilização do indivíduo pelo seu envelhecimento e o Estado não teria mais responsabilidade sobre o seu bem-estar. Isso se dá por meio das políticas públicas, mas nós temos que analisar aí o que eu chamo do idosismo.”
LOC
O termo idosismo usado por Jorge tem como referência a palavra em inglês ageism, que pode ser traduzida como idadismo. Ambos são sinônimos de etarismo, um tipo de discriminação baseada na idade de alguém.
SON - Jorge Felix (27:06 - 28:19)
“Como destaca a professora Guita, você também responsabiliza o indivíduo se ele envelheceu em más condições. Ou seja, pela sua própria saúde, aí entra a beleza, entra a questão da imagem da pessoa, do que ela pensa, do que ela fala, entra todo um preconceito em relação à pessoa idosa, e até se exige dessa pessoa idosa que ela seja sábia. Mas só que isso tudo é responsabilidade sua, e isso vem muito, que eu colocando, isso vem muito num termo que é muito ouvido, que é dizer, fulano envelheceu mal, ou envelheceu mal, não soube envelhecer. Então, esses termos que são usados, ouvidos, constantemente, muito ouvidos, eles refletem exatamente essa reprivatização da velhice.”
LOC
O termo reprivatização é usado pela pesquisadora porque, nos séculos passados, a velhice era de responsabilidade individual. Sem apoio estatal e associados à incapacidade de trabalhar, idosos tinham a pobreza e a dependência como regra.
SON - Jorge Felix (28:46 - 30:16)
“E era comum a gente ver aqui na Europa, em Londres, Paris, isso eu estou falando do século 19, idosos mendigos, idosos na rua, porque eles perdiam a capacidade de trabalho e não tinham a seguridade social. Depois vem a Segunda Guerra Mundial e vem o Estado de Bem-Estar Social, que eu sempre destaco isso para os meus alunos. Esse Estado de Bem-Estar Social foi construído em nome da paz. Quando você retira a responsabilidade do Estado sobre o bem-estar dos indivíduos, você cai no cada um por si. Então, o Estado teve um período de responsabilidade e construiu o Estado de bem-estar social. Depois dos anos 80, o Estado volta a privatizar a velhice. Por isso que ela chama de "reprivatização da velhice". E é isso que a gente tem observado e está vivendo.”
TEC - Confused State
LOC
De volta ao centro, os moradores da São João têm autonomia na rotina. Alguns deles passeiam pela cidade, e têm aqueles que trabalham, no caso dos mais jovens.
Esses podem atuar em empresas privadas ou no Programa Operação Trabalho da prefeitura, o POT, encaminhados pela própria equipe técnica da morada.
O centro de acolhida especial de idosos é um dos serviços da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social de São Paulo voltados para a terceira idade. Ela conta com serviços de proteção básica e especial.
No nível básico, estão os Centros de Referência do Idoso, os Núcleos de Convivência e os Serviços de Alimentação Domiciliar. Já no nível especial, a secretaria atende os centros-dia, as instituições de longa permanência e os centros de acolhida especial.
Recebem a qualidade de especiais os serviços que exigem um cuidado intensivo e contínuo. Eles têm estruturas adaptadas e as equipes técnicas são especializadas.
No geral, a prefeitura oferta 158 serviços para idosos na cidade. Segundo o Censo 2022, são pouco mais de 2 milhões de idosos na capital, um número que representa mais de 17 e meio por cento da população.
SON - Atanailton (3:27 - 4:13)
“Eu gosto de fazer isso aqui, ó. Pintura. Pintura? É. Aqui mesmo teve um tempo aqui. Fizeram um grupo aqui. A gente foi fazer o curso ali na Bela Vista na Rua Abolição. Uma semana. Aí vieram um bucado de gente pra aqui. A gente foi pintar os quartos aqui. Porque a gente tava precisando. A gente deixou tudo zerado. Aí cada um recebeu seu diploma. Aí fizeram uma festinha Lá embaixo. Comes e bebes. Eu mesmo não participei. Eu só fiz Acho que eu tomei um copo de Coca-Cola. Aí peguei meu diploma Subi e guardei dentro do meu armário.”
LOC
O Atanailton me contou um pouco sobre sua rotina.
SON - Atanailton (5:41 - 7:26)
“Eu saio, vou passear. Vou lá, pego o ônibus aqui na avenida. Vou lá em Pinheiros. Dou um passeio ali no Largo da Batata. Converso com os colegas. Pego o ônibus, venho embora. Chego aqui, entro, lavo minhas mãos. Vou almoçar. Aí depois eu volto. Vou assistir um pouco de televisão. Depois eu saio. Vou dar uma passeada. Aí sempre (6:05) Quando eu acho uma pintura eu vou, eu faço. Essa minha patroa mesmo Eu trabalhei com ela há oito anos. Aí quem faz a faxina na casa dela sou eu. Eu não tenho vergonha de falar não. Ela sai, eu fico sozinho dentro de casa de Deus. Aí eu mando ela ligar a TV. Boto na música evangélica. E tô ali fazendo meu serviço e tô me desenvolvendo. Não é pra ficar com fome. Tem almoço aí. Bota no microondas. Coma. Se eu souber que você ficou com fome. Aí pronto. Aí quando ela chega de tarde. A casa dela tá brilhando. Que nem todas as mulheres que fazem o meu serviço que eu faço. Em casa de família. E por aí. Eu passei quatro dias na casa dela. Trabalhando. Seis horas eu tava acordado pra fazer a pintura. Eu só saí depois que eu deixei tudo pronto. Não levei ajudante nenhum. Eu fiquei com medo de eu levar E aquela pessoa Tá ali, mas eu é a hora que sai assim, rouba alguma coisa Quando ela chegar Tá faltando Algum objeto meu ali. Aí eu vou saber quem foi o meu ajudante.”
LOC
Na São João, cada quarto tem entre 3 e 4 moradores, que são responsáveis por cuidar do banheiro, do quarto e das roupas.
SON- Atanailton (4:20 - 4:48 + 1:11 - 1:33)
“Sempre no quarto tem um bagunceiro. Que nem ontem mesmo Saiu um. Botava lá pra cima. Não deixava ninguém dormir. Abria a porta. Saia e fechava. Queria tomar cinco banhos na noite. Não podia. A gente querendo dormir não conseguia dormir. Aí como foi ontem Aí a menina Pegou e transferiu. O Valério botou ele lá no Terceiro andar. Aí ele começou a resmungar.”
“Eu, graças a Deus, não tenho o que dizer nada. Somos tudo ótimo.A comida é excelente. Tem gente que diz ah, eu não vou almoçar aqui hoje, que a comida aqui é ruim. Não. A gente tem que levantar a mão e agradecer a quem? A Deus, por essa refeição que a gente tem aqui. São muito boas.”
LOC
Além das refeições, o centro de acolhida oferece lavanderia, produtos de limpeza e higiene pessoal e roupa de cama. Assistência médica e outros atendimentos individuais também fazem parte do serviço, assim como atividades coletivas.
Essas atividades trabalham o convívio social e o desenvolvimento de aptidões. O Mikael Pontes, que é orientador socioeducativo da Morada São João, me explicou como isso funciona.
SON - Mikael (2:47 - 3:37)
“Atividade memorial, musicoterapia, tem profissionais também que são fonoaudiólogos, tem atividade da equipe de saúde que eles fazem, tipo novembro azul, outubro rosa, eles participam bastante. E cada último dia do mês tem aniversariantes. Eles, a equipe mesmo, a equipe não, a organização, oferta bolo, refrigerante para eles, sempre no último dia do mês. E semanalmente, no final de semana, se não me engano entre sexta e sábado, eles disponibilizam filme, cinema, que acontece essa atividade lá na cobertura.”
LOC
No total, são cinco andares e uma cobertura, que funciona como área de lazer.
SON - Mikael (0:27 - 2:00)
“E aqui são divididos em cinco andares. Do terceiro para cima é os idosos autônomos, que nem precisa tanto de auxílios dos profissionais. A questão é, quando passa mal ou tem algum problema grave de saúde, a gente aciona o SAMU, eles vêm até o equipamento e caminha esse idoso para um tal local de saúde. Aqui vocês podem verificar que no segundo andar são os idosos que têm que estar com mais atenção diariamente. Se vocês analisarem, a equipe de gerência, os técnicos, assistentes sociais, psicólogos e a equipe de enfermagem que fica instalada no segundo andar. Aqui no segundo andar alguns idosos utilizam fralda, efetuam a refeição que os profissionais trazem até o andar, porque não tem como descer.”
LOC
As mulheres ficam no primeiro andar e são minoria no prédio. E eu questionei o porquê disso.
SON - Mikael (6:17 - 6:34)
“Aí vai com a gestão entre a prefeitura e as ONGs por aí, né? Porque não é só aqui que a demanda é menor entre mulheres. Outras ONGs, outros centros de acolhidas também. Acho que são perfeitos os centros de acolhidas. É, porque eu acho que é muitos homens que vivem em situação de rua mais do que mulheres.”
LOC
Em junho de 2024, um levantamento mostrou que 85 por cento das pessoas em situação de rua no Brasil são homens e 69 por cento são negras. A maioria tem entre 18 e 59 anos de idade.
Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da Universidade Federal de Minas Gerais.
Em São Paulo, o número de pessoas em situação de rua tem crescido. Em 2021, cerca de 4 mil e 700 idosos viviam nas ruas da cidade, de um total de 37 mil pessoas na mesma condição.
De lá pra cá, o número só aumentou. Em junho de 2024, já eram mais de 80 mil pessoas em situação de rua na cidade.
Com o acolhimento no centro, os idosos deixam de estar na rua, mas, muitas vezes, ainda não têm estrutura para retornar à família.
Para Mikael, a maior dificuldade em seu trabalho é lidar com a solidão.
SON - Mikael (8:02 - 12:08)
“A solidão deles traz ódio, traz remorso, traz tristeza. Às vezes ele não quer te tratar mal, mas ele acaba te tratando mal pela solidão, pelo preenchimento que ele tem vazio desde o passado. Tipo, você deixar um filho ou um irmão para trás e eles não te aceitarem. Mas eu acho que machuca, transmite ódio. Não tem o que dizer. Você se sentir sozinho ali num mundo que você não conhece ninguém. Você está protegido em cima da lei, mas você não conhece ninguém. Então, a solidão bate, ela machuca. E ela te traz a ignorância e o ódio. E aí isso afeta você? Não, não me afeta. Eu tento conversar com eles o máximo que eu posso, onde eu posso mostrar para eles que eles não estão sozinhos. Porque onde eu posso chegar nessa idade e querer procurar alguém para conversar comigo, não tem. Às vezes, a pessoa idosa, quando ela está com a idade avançada assim, e num sistema igual esse que eles estão vivendo, às vezes ele precisa só de um, nem cinco minutos, dois minutos de conversa já tranquiliza. Ainda mais as atividades que eles fazem aqui para ocupar a mente, para esquecer um pouco do mundo lá fora. Agora para mim, aqui, trabalhar com pessoas mais velhas que eu, para mim, isso daqui é uma lição, para mim, não errar. Não errar e me deparar como eles. Tudo que eles vão me falando, eu vou absorvendo. Por quê? Pode servir como uma lição para mim. Eu sou jovem, tenho 26 anos. Eles têm 80, 70, 60. Eles não estão falando por mal. Eles estão falando pelo meu bem. Então aqui eu levo como lição. Para mim, não errar e me deparar aqui.”
TEC - Candlepower
LOC
Em 1910, uma pessoa nascida no Brasil tinha uma expectativa de vida de 34 anos de idade. No meio do século 20, esse número subiu para 52 anos. E, em 2025, a expectativa é de 77 anos de idade, segundo dados do IBGE.
O aumento da expectativa de vida no Brasil nos últimos anos reflete um país que vive mais. Mas será que, além de viver mais, a população tem vivido melhor?
Os desafios para uma longevidade saudável são tema do próximo episódio, que traz entrevistas em um Núcleo de Convivência para Idosos na zona norte de São Paulo.
TEC - vinheta do podcast
Você ouviu o primeiro episódio do podcast Onde Mora a Velhice. Ele foi pensado e roteirizado por Beatriz Herminio como Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da USP.
O programa foi editado por Beatriz Herminio, e a vinheta é de Gabriel Guerra.
TEC - Groove Groove
Neste episódio, foram usadas as seguintes músicas, licenciadas de acordo com a licença Atribuição 4.0 da Creative Commons:
- Confused State - The Dark Contenent de Kevin MacLeod. Fonte: http://incompetech.com/music/royalty-free/index.html?isrc=USUAN1100453
- Groove Grove de Kevin MacLeod. Fonte: http://incompetech.com/music/royalty-free/index.html?isrc=USUAN1200054
- Chill - Disco Ultralounge de Kevin MacLeod. Fonte: http://incompetech.com/music/royalty-free/index.html?isrc=USUAN1100375
- Candlepower de Chris Zabriskie. Fonte: http://chriszabriskie.com/divider/