ondemoraavelhice
EPISÓDIO 2
ENVELHECER É COLETIVO
Os desafios para uma longevidade saudável são tema do segundo episódio, que traz entrevistas em um Núcleo de Convivência para Idosos na zona norte de São Paulo e uma entrevista com a médica geriatra Karla Giacomin, que é coordenadora da Frente Nacional de Fortalecimento das Instituições de Longa Permanência para Idosos.
Roteiro, captação e edição: Beatriz Herminio
Transcrição
TEC - Intractable
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Acrescentar vida aos anos e não apenas anos à vida.
Para estudiosos do envelhecimento, é disso que se trata pensar a longevidade.
Em 1910, a expectativa de vida de um brasileiro era de 34 anos. Hoje, esse número é de 77 anos.
É fato que estamos vivendo mais. (?) Mas será que estamos vivendo bem?
Meu nome é Beatriz Herminio e e este é o segundo episódio do Onde Mora a Velhice, um podcast sobre os fatores que estão por trás do envelhecimento saudável de uma população
TEC - vinheta do podcast
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Um dos principais indicadores para avaliar a qualidade do envelhecimento é o tempo vivido com saúde e autonomia.
É o que se chama de anos de vida saudável.
Esse número é consideravelmente menor do que a expectativa de vida total.
De acordo com o IBGE, vivemos, em média, 77 anos. Mas esse dado varia dependendo da metodologia usada para o cálculo.
A OMS calcula que, em 2021, a expectativa de vida era de 72 anos no Brasil. Mas se vivia cerca de 62 anos com saúde considerada boa.
Ou seja: os últimos 10 a 15 anos de vida, para muitos brasileiros, costumam vir acompanhados de limitações, doenças crônicas ou dependência.
TEC - Candlepower
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E o que significa ter uma vida autônoma?
Na velhice, isso inclui ser capaz de realizar atividades do dia a dia, como tomar banho, escovar os dentes e se vestir.
Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, mais de 3 milhões de pessoas com 60 anos ou mais tinham limitações para fazer essas tarefas básicas.
Mas o número salta para 7 milhões quando falamos de tarefas mais complexas, como cozinhar, fazer compras, controlar os remédios ou pegar transporte público.
Essas são chamadas atividades instrumentais da vida diária e exigem uma vida mais ativa na comunidade.
E existe um recorte importante nesses dados.
Entre idosos que vivem com até meio salário mínimo per capita, 1 em cada 4 tem limitações funcionais. Já entre aqueles com renda acima de 5 salários mínimos, o índice cai para 1 em cada 10.
Biologicamente, é natural que o corpo sofra um declínio das funções com o passar dos anos. Mas o acesso a hábitos saudáveis não é igual para todos.
A prática de exercícios físicos, por exemplo, é um fator decisivo para manter a autonomia.
E uma pesquisa do Datafolha mostrou que 53 por cento da população adulta brasileira pratica alguma atividade física.
Mas entre os que têm renda familiar mensal acima de 5 salários mínimos, esse índice sobe para 66 por cento.
Enquanto isso, entre os que vivem com renda familiar de até dois salários e meio, a taxa cai para 47 por cento.
TEC - Candlepower
Mas quando a gente precisa de cuidado, (?) quem cuida da gente?
A médica geriatra Karla Giacomin é especialista em políticas de cuidados de idosos e consultora da OMS para políticas públicas e envelhecimento.
Karla, (?) do que estamos falando quando falamos em longevidade?
SON - Karla Giacomin (0:40 - 1:05)
“É muito importante a gente ter essa noção de que a longevidade é uma conquista da humanidade, né? E a gente pensa sempre em longevidade na forma de uma longevidade ativa, de uma longevidade saudável. E pela primeira vez a Organização Mundial de Saúde, quando definiu a década de envelhecimento saudável, incluiu também a possibilidade de oferecer cuidado.”
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Ao estabelecer a Década de Envelhecimento Saudável, de 2021 a 2030, a OMS destacou o cuidado como uma de suas quatro áreas prioritárias.
A primeira envolve combater o preconceito de idade e mudar a forma como vemos o envelhecimento. O segundo pilar propõe que as comunidades fortaleçam as capacidades das pessoas idosas, promovendo participação e autonomia. O terceiro foca em garantir serviços de saúde integrados. E, por fim, o quarto: assegurar o acesso a cuidados de longo prazo para quem precisa.
Mas, afinal, (?) por que políticas de cuidado são importantes?
SON - Karla Giacomin (1:05 - 1:36)
“Por quê? Porque a gente aprendeu a entender que quem envelhece de forma ativa é legal, é bacana, e quem envelhece de forma demandando cuidado é como se fosse uma pessoa que falhou no seu projeto de longevidade. E, na maior parte das vezes, isso não é verdade. Porque o que garante uma longevidade saudável é o acesso a direitos fundamentais. Acesso a direito à educação, acesso a direito à saúde, acesso a direito a uma habitação saudável, a uma mobilidade urbana, a segurança pública.”
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O conceito de envelhecimento ativo se contrapõe à ideia de que idosos são apenas receptores passivos de serviços de saúde e assistência.
Para a OMS, “envelhecimento ativo” é definido como a otimização de oportunidades de acesso à saúde, participação social, segurança e educação pela terceira idade.
Mas, no episódio anterior, eu citei a antropóloga Guita Grin Debert para falar do conceito de reprivatização da velhice.
No livro A Reinvenção da Velhice, ela alerta para o perigo do envelhecimento ativo, que seria transformar o direito de escolha num dever, numa obrigação de todo o cidadão e até mesmo das famílias.
Mesmo porque, ela afirma que os recursos para envelhecer com autonomia não são distribuídos de forma igualitária.
SON - Karla Giacomin (5:15 - 6:08)
“Isso para nós é fundamental. A gente construir uma mentalidade, mudar o nosso formato, como fomos acostumados a viver. Porque fomos acostumados a viver enxergando pobreza como parte, enxergando que algumas pessoas moram mal, algumas pessoas moram na rua, algumas pessoas não têm direito a uma educação de qualidade, como se isso fosse problema delas. Não é, é problema nosso. Porque isso vai repercutir na nossa longevidade, como país. E o que a gente percebe hoje também, por que é tão importante? Porque quanto mais desigual é essa longevidade, maior vai ser a demanda de cuidado exatamente para a população mais pobre.”
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Em 2023, a taxa de idosos em situação de pobreza era de 11,3 por cento. Mas o grupo de idade mais atingido pela pobreza são as crianças, com uma taxa de quase 45 por cento. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua de 2023.
Para Karla, ao favorecer que mais pessoas saiam da linha da pobreza e tenham acesso a direitos fundamentais, estamos também favorecendo um país melhor nesse aspecto.
SON - Karla Giacomin (6:27 - 7:09)
“Não que não haja pessoas ricas e pessoas de classe média precisando de cuidado, não é isso. Mas quando a pessoa mais rica demanda cuidado, ela vai comprar esse cuidado. Enquanto a pessoa mais pobre vai ter que sair do mercado de trabalho para cuidar, impactando todo o circuito, tanto a vida dela quanto da nossa própria sociedade, porque a gente tira pessoas do mercado de trabalho. Quando essa tarefa de cuidar acabar, ela vai estar mais velha, menos qualificada, não vai ter contribuído para a seguridade social, então vai estar mais suscetível a demandar renda no futuro.”
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+ O envelhecimento é resultado das escolhas, oportunidades e políticas vividas ao longo da vida. E cada etapa tem seu impacto na terceira idade.
SON - Karla Giacomin (13:14 - 14:19)
“A gente acredita que, quando a gente vai envelhecer, a gente precisa de políticas de cuidado. Em qualquer etapa da vida, precisamos de políticas de cuidado, seja para o bebê, seja para o adolescente, seja para o adulto, em qualquer ponto. Só que, em muitos desses momentos, eu parto de um cuidado que, no início, é intenso e, a partir de algum ponto, a criança, o adolescente, vai ficando mais independente e a demanda de cuidado tende a diminuir. E, por sua vez, a pessoa também assume o seu próprio cuidado. Na questão, na faixa etária dos mais velhos, dos mais longevos, octogenários, nonagenários, nós sabemos hoje que, no nosso país, 52 por cento das pessoas com mais de 80 anos já apresentam alguma limitação no autocuidado, seja na mobilidade, seja por questão cognitiva, seja por incontinência, alguma situação assim.”
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As instituições de longa permanência são o que se chamava de “asilos”. Hoje, um termo mais aceito é casa de repouso.
Nessas instituições, abreviadas como ILPIs, vivem idosos com perda da capacidade de autocuidado, que sofrem alguma violência ou têm vínculos familiares fragilizados. São pessoas que precisam desse cuidado.
SON - Karla Giacomin (14:19 - 14:35 + 38:08 - 38:31)
“Então, quando a família, quando a pessoa não tem família, ou quando a família não consegue ofertar o tipo de cuidado na intensidade que aquela pessoa demanda, existe a possibilidade de ir para uma instituição.
“A minha avó teve 16 filhos, a minha mãe teve quatro filhos e eu não tive filhos. Isso se chama transição demográfica. Você sai de um lado para o outro. A minha mãe hoje mora, eu moro a 320 km da minha mãe. Então eu sou filha dela, mas quem garante que eu vou cuidar dela. E eu sou a caçula dos meus quatro irmãos. Se tudo correr bem, eu vou ser a última a morrer. Quem vai cuidar de mim?”
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O fato de ir para uma instituição não significa por si só que todos os moradores desses lugares são dependentes.
SON - Karla Giacomin (21:07 - 21:42)
“De acordo com a Anvisa, a gente tem pessoas em três graus de dependência. Independentes, que é o grau 1. Semidependentes, que é o grau 2. E o grau 3 seria aquele com dependência para o autocuidado ou com déficit cognitivo, com algum processo demencial. No Brasil, a gente ainda tem pessoas que chegam para morar na instituição com muita independência.Na verdade, elas estão morando na instituição por falta de opção. Ou porque não foi possível ofertar o cuidado para elas na casa delas. Ou porque elas não tinham casa, ou porque elas não tinham família.”
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Essas instituições deveriam manter um papel social ativo, mas, segundo Karla, isso ainda está longe de acontecer.
SON - Karla Giacomin (15:48 - 16:28)
“O papel social seria manter as portas abertas para a comunidade, para que as pessoas pudessem ir lá visitar, para que os voluntários frequentassem essas casas, para que os idosos que residem lá também saíssem das casas, frequentassem as praças, fossem ao cinema, visitassem uma exposição, mas no nosso país isso ainda é raríssimo, é muito precário. É tão precário que 2,5 por cento só das residências para idosos chamadas instituições, apenas 2,5 por cento são públicas de fato, quer dizer, que o governo propõe e oferece.”
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A Karla Giacomin faz parte da Frente Nacional de Fortalecimento das ILPIS, que busca dar visibilidade e qualificar o cuidado prestado nesses espaços.
SON - Karla Giacomin (16:43 - 17:29 + 18:55 - 19:25)
“Não significa que essas instituições privadas não prestem também uma função social, também prestam, mas o que eu acho mais grave, Beatriz, é a falta de transparência nesse percurso, porque, por exemplo, se você precisar, se seu pai precisar, se sua avó precisar de uma instituição, de ir para uma casa dessas, onde você busca? Quem você procura? Se você tem dinheiro, você vai buscar aquela que oferece o conforto, os serviços, que o seu dinheiro pode comprar, mas se você não tem, você vai ficar sujeita a instituições, muitas vezes, voltadas para a caridade.”
“Nós não sabemos até hoje, Beatriz, quantas instituições existem no Brasil. Esses números que eu te apresentei, são números do censo do Sistema Único de Assistência Social e de um censo que a Frente Nacional fez para levantar o número de instituições que existiam no Brasil. Mas nós não temos um cadastro. Se você perguntar hoje, em São Paulo, onde está? Me dá uma lista das instituições. Nós não temos. Aqui no meu bairro, onde é que estão? Nós não sabemos.”
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Em São Paulo, a prefeitura afirma que existem 649 ILPIs privadas e 20 públicas. O dado foi obtido via Lei de Acesso à Informação, com base no registro de Licenças Sanitárias Ativas. Mas não há dados qualitativos disponíveis para acesso hoje.
SON - Karla Giacomin (19:25 - 19:54)
“Quem trabalha lá? Qual tipo de serviço é ofertado lá? Nós não sabemos. Então, isso fala dessa dificuldade. Dificuldade com o envelhecimento e dificuldade com as políticas de cuidado. Porque a nossa cultura é uma cultura familista. Ela atribui à família esse dever de cuidar. E uma cultura sexista, ela atribui à mulher, dentro da família, a obrigação de cuidar. Isso tudo precisa ser revisto.”
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Em 2022, quase 30 por cento dos brasileiros com 14 anos ou mais cuidavam de outra pessoa, fossem moradores da casa ou parentes próximos.
Mas essa tarefa pesa de forma desigual: enquanto 23 por cento dos homens fazem esse tipo de cuidado, entre as mulheres, a taxa sobe para quase 35 por cento.
TEC - Chill
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Na zona oeste de São Paulo, eu conversei com a proprietária de um centro dia privado para idosos.
Os centros-dia são outro tipo de serviço que acolhe idosos com algum grau de dependência. Diferente das ILPIs, eles não oferecem atendimento em tempo integral, mas um cuidado diário. Geralmente, os idosos chegam de manhã e vão embora no fim da tarde.
Os centros-dia não são creches, nem serviços de saúde, mas serviços de proteção social especial.
SON - Naomi (4:03 - 4:40)
“Não é um perfil que você precisa institucionalizá-la, numa ILPI que a gente fala, uma instituição de longa permanência, porque o perfil é diferente, só que é um perfil que precisam de cuidados específicos, mas é um perfil que eles se socializam, eles fazem as atividades do dia a dia com uma certa autonomia, só que o familiar precisa trabalhar, ele tem os próprios compromissos, então onde deixar essas pessoas?”
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A Flávia Naomi Yano é proprietária do Naomi Centro-dia para idosos.
Na tarde da minha visita, tava rolando um bingo, que é uma das atividades oferecidas no dia a dia.
TEC - som do bingo
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Com uma equipe de profissionais parceiros, o centro dia tem nutricionista, professores de atividades como zumba, arteterapia, oficina de memória e a fisioterapia diária, feita pela Naomi.
SON - Naomi (10:05 - 10:24 + 8:27 - 8:36)
“Nós temos também, tem parceiros como cabeleireiro, manicure, que são serviços que a gente oferece para os familiares e o próprio familiar ele opta por adquirir esse serviço ou não.”
“A gente não fala paciente, porque aqui não é um hospital ou uma clínica, então a gente fala clientes, porque o familiar ele paga para usufruir dos serviços.”
LOC
A casa fica em um bairro residencial da região do Butantã e atende 22 idosos.
Alguns vão cinco vezes na semana, outros estão no plano de duas ou três vezes de frequência semanal. E o centro já tem fila de espera para atendimento.
SON - Naomi (22:06 - 22:22)
“A gente tem dois planos aqui na casa, que eu falei, a gente tem o plano integral, que é das 8 horas da manhã às 18 horas, e a gente tem um plano que chama plano intermediário, intermediário é das 10 e meia às 4 e meia.”
LOC
O plano mais caro custa dois mil e seiscentos reais por mês, e o mais barato, mil novecentos e cinquenta reais mensais.
TEC - som do bingo
SON - Naomi (20:00 - 21:40)
“Como eu falei, muitas têm Alzheimer e hoje eu falo que a gente conseguiu um dos nossos objetivos, que é estacionar a progressão da doença, porque mesmo com Alzheimer, pode ser que elas não lembrem o dia da semana, porque quem tem demência, elas esquecem, elas perdem a memória recente, mas aquela memória passada é onde fica preservada. É onde você vê que a memória recente, por mais que tenha sido perdida, você percebe que tem parte ali que está preservada, então é onde a gente estimula, porque é aí que entra o nosso vínculo também, porque é tudo, pequenos detalhes são estímulos para elas, então é desde estimular o nosso nome, para elas lembrarem o nome da equipe, que a maioria sabe, hoje elas sabem o horário de escovar os dentes, a hora do almoço, onde fica banheiro, então esses pequenos detalhes é onde a gente vê que, opa, a gente já fica feliz, que é onde a gente está conseguindo um dos nossos objetivos, que é estacionar a doença.”
TEC - Chill
LOC
O termo “demência” descreve um conjunto de sintomas que afetam a função cerebral, e incluem problemas de memória, raciocínio, linguagem e comportamento. Essa condição é crônica e progressiva, ou seja, ela não tem cura, e piora com o tempo.
Mas existem tratamentos que reduzem a progressão da demência, como remédios, terapia e estímulos cognitivos.
Em 2019, a prevalência de casos de demência na população idosa brasileira era de 8,5 por cento.
Se as condições atuais persistirem, o número de casos pode quadruplicar até 2059, segundo o relatório nacional sobre a demência divulgado pelo Ministério da Saúde em 2024.
Há alguns fatores sociais de risco para o desenvolvimento da demência. A baixa escolaridade é um deles. Outro fator é a solidão.
Uma revisão de estudos publicada na revista Nature Mental Health em 2024 mostra que sentir-se solitário na velhice aumenta em 31 por cento o risco de desenvolver demências e eleva em 15 por cento a probabilidade de comprometer as funções cognitivas, como a memória e a concentração.
Por isso, espaços de convivência na cidade fazem a diferença.
TEC - Intractable
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Na zona norte de São Paulo, o Núcleo de Convivência para idosos Vovó Maria José é um serviço público. Uma parceria entre a prefeitura e uma Organização da Sociedade Civil.
Chamados de NCI, esses núcleos tem como objetivo quebrar o isolamento e propiciar atividades que favoreçam a qualidade de vida dos idosos.
SON - Maria Girlene (3:18 - 3:48)
“No primeiro dia que eu cheguei, nossa, eu fui levada às alturas, sabe? Porque o aconchego dessas meninas aqui é demais, sabe? Porque eu cheguei aqui assim, lá embaixo, quase no fundo do poço. Mas graças a elas aqui e as minhas amigas que eu fiz, que a gente não se conhecia, né? Foi uma convivência maravilhosa, tá sendo até hoje.”
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Essa é a Maria Girlene dos Santos. Nascida no Ceará, ela veio para São Paulo em 1972. Hoje, tem 76 anos e participa do NCI.
SON - Maria Girlene (3:49 - 5:06)
“Nossa, aí eu faço dança cigana, que eu amo. Eu faço tai chi com dança circular e faço envelhecimento ativo. E em casa eu sempre tô em ativa. Eu costuro, não sou costureira, mas eu costuro invento, né? Gosto de artesanato. Eu faço vasos de cimento, faço, pinto vasos de coisas recicláveis, né? E faço crochê e cuido das minhas plantas. Moro sozinha em Deus, mas eu tenho duas sobrinhas que são minhas filhas do coração, que eu nunca tive filhos. Então, eu tenho elas que me apoiam em tudo na minha vida, tudo, tudo mesmo. Então, eu moro sozinha, mas eu não me sinto sozinha, sabe? Porque eu tenho o aconchego delas e tenho o aconchego do pessoal daqui. Nossa, e eu sou feliz por tudo, né? Por estar aqui, por estar em casa e receber o carinho de todos.”
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O sentimento da Maria é parecido com que me contaram a Teresa e a Ernestina, que também participam das atividades coletivas do NCI toda semana.
SON - Teresa (1:28 - 1:45)
“Meu nome é Teresa Mendes dos Santos. Tenho 67 anos, até abril. Sou paulista. Nascida em São Paulo. Também tô aqui porque daí vier. Bora fazer exercício, que é bom.”
SON - Ernestina (1:46 - 2:12)
“E a Senhora? Ai, eu me chamo Ernestina, e eu gosto muito daqui, mas muito mesmo. E aqui, eu... vim quase morrendo aqui, eu tô quase boa. Só isso que eu tenho pra falar. Qual que é a idade da senhora? Ah! 93. 92 anos.
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A Ernestina conta que quase não andava quando conheceu o núcleo, inaugurado há menos de dois anos na Vila Medeiros, zona norte da capital paulista.
SON - Ernestina (10:48 - 11:45)
“E eu me sinto muito bem aqui, sou muito feliz porque aqui eu vim meio adoentada e tô boa. Melhorou? Boa, mas cem por cento. É? Eu quase não dava pra andar com as pernas. E hoje eu venho lá da minha casa, é por 15 minutos de lá pra cá andando. Andando. Andando. Mas eu me sinto muito feliz, filha. Mas muito, com muita saúde já. Mas trabalhei muito. Agora chega. Chega. Agora só espero que cuidem bem de mim.”
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Os núcleos de convivência oferecem atividades coletivas, mas também fazem acompanhamento domiciliar. No vovó maria josé, são 280 atendidos no núcleo e 76 a domicílio.
Esse atendimento domiciliar existe porque o núcleo não é apenas um local de oficinas, mas de acompanhamento dos idosos como um todo. É o que me explica a gerente de serviços Rosineide Gervasoni.
SON - Rosineide (2:07 - 3:10)
“Porque além das atividades físicas e culturais, a gente faz atividades socioeducativas também, a gente traz rodas de conversas, né. A psicóloga faz grupo de memória, traz grupos para trabalhar os direitos sociais do idoso, né. Então, a gente trabalha o idoso num todo, mas não é só o idoso. Quando eu falo assim, olha, eu trabalho com 290 idosos, mas eu tenho 290 famílias que eu preciso também. Porque se acontece alguma coisa nessa família, a família é acompanhada pela gente. Então, a gente vai até a casa, a gente acompanha, o idoso fica doente, a gente vai, o idoso faz uma cirurgia, a gente está lá. Se há um falecimento de cônjuge ou filho que já aconteceu aqui, a gente está lá dando suporte para o idoso na sua família também.”
LOC
A equipe é pequena. São seis pessoas ali diariamente: a gerente, duas técnicas, um administrativo, um operacional de limpeza e outra de cozinha.
O lugar oferece alimentação, ainda que as pessoas passem ali para fazer apenas algumas oficinas ao longo do dia.
No dia da minha visita, passaram 170 pessoas pelo núcleo.
SON - Adriana (10:47 - 11:05)
“Às vezes, chegam idosos aqui que não conseguem fazer atividade física, a gente vai conversando com eles, vai adequando as oficinas que eles se adaptam melhor. E aí eles começam a entender que aqui não é uma academia, que é um serviço voltado para convivência, fortalecimento de vínculos.”
LOC
Quem me explica isso é a Adriana Félix, que é assistente social do núcleo.
Alguns idosos chegam ao núcleo com problemas de saúde física e psicológica, como ansiedade e depressão. Então, o núcleo os encaminha para serviços de saúde.
O fortalecimento de vínculos diz respeito tanto a laços comunitários, para evitar o isolamento social, quanto a laços familiares, que às vezes foram rompidos.
SON - Rosineide (25:35 - 27:04 + 18:30 - 18:43)
“O isolamento social é muito grande, nós temos uma idosa que ela vivia nesse isolamento social, e ela tem um filho, porque a família, ela foi mãe solteira, e naquela época ser mãe solteira era um crime, era para eles, então eles meio que abandonaram a família, abandonaram ela, e o filho, e ela lutou sozinha para criar esse filho, e esse filho hoje está super bem, ele tem uma faculdade, ela trabalhou para, ela falava que ela deixava de comer, para sustentar ele, para dar faculdade para ele, e hoje ele, e aí ele sentia agora vergonha dela, porque ela não é estudada, e ele, num emprego bom, estudado, bem fragilizado, então, qual é o nosso papel, é trabalhar esse filho, e a gente já resgatou ele bastante, tanto que eu fiquei tão feliz que no Natal ele pegou a mãe dele e foi fazer um passeio com ela, foi viajar com a mãe, e o NCI tem o que? Um ano e oito meses, esse NCI, então se a gente contar a história de um ano e oito meses, nós temos muitas histórias assim, de sucessos para contar.”
“Tem uma finada idosa que dizia, NCI é vida. Então, eu gravei muito isso. Ela sempre olhava dentro do meu olho e falava, NCI é vida. Então, NCI é vida.”
SON - Senhoras NCI (20:16 - 20:52)
“Qual que é a coisa mais importante da vida pra vocês atualmente? A saúde. A minha saúde e esse núcleo aqui que nos trouxe mais saúde ainda. Minha saúde, o marido e os filhos. Aqui a gente se sente acolhida. Fiz um monte de amizade aqui. A gente fica só no zap. Tendo saúde pra gente conquistar ainda. Porque nós temos muito o que conquistar ainda. Não tô morta. Tem muito o que conquistar. Tem muito o que dançar ainda.”
TEC - Candlepower
LOC
Enquanto algumas iniciativas tentam responder às demandas do envelhecimento, o Brasil ainda enfrenta desafios estruturais.
A geriatra Karla Giacomin reforça que o desafio de garantir uma longevidade saudável é urgente. Essa é uma questão atual.
SON - Karla Giacomin (8:32 - 8:58)
“O primeiro desafio é saber que não é no futuro, é no presente. Porque o Brasil está sempre postergando lidar com a questão do envelhecimento. Quando comecei a fazer geriatria há 30 anos, eu estudava que em 2025 o Brasil ia ser a quinta população mais velha do mundo. 2025 já chegou. E hoje a gente fala assim, em 2050 o Brasil vai ter 33 por cento de idosos. Então, é como se eu nunca enfrentasse a realidade que está posta.”
LOC
Envelhecer não é um evento isolado; é o resultado de tudo o que vivemos.
Por isso, cuidar da velhice exige refletir sobre a forma como lidamos com áreas como saúde, trabalho, mobilidade e educação desde a infância.
SON - Karla Giacomin (33:47 - 34:18)
“E quando a gente chegar na vida adulta, que a gente tenha tido uma qualificação profissional legal, que a gente tenha condições de trabalho mais salubres, mais corretas. Que a gente tenha direito a descanso. E quando a gente ficar mais velho também, que a gente tenha direito à aposentadoria de qualidade, convívio familiar, tudo isso, porque a vida é um curso, e aquilo que você viveu na infância te repercute até o último dia.”
TEC - Candlepower
LOC
Talvez a gente não se preocupe tanto com a velhice porque estamos ocupados vivendo o agora, e faz sentido.
Mas nem por isso deixamos de refletir sobre o futuro. (?) Ou será que deixamos?
Esse é um assunto que definitivamente não se esgota em dois episódios, e ainda pode (e deve) ser muito explorado.
TEC - vinheta do podcast
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Você ouviu o segundo episódio do podcast Onde Mora a Velhice. Ele foi pensado e roteirizado por Beatriz Herminio como Trabalho de Conclusão de Curso da Escola de Comunicações e Artes da USP.
O programa foi editado por Beatriz Herminio. A vinheta é de Gabriel Guerra.
Neste episódio, foram usadas as seguintes músicas, licenciadas de acordo com a licença Atribuição 4.0 da Creative Commons:
- Intractable de Kevin MacLeod. Fonte: http://incompetech.com/music/royalty-free/index.html?isrc=USUAN1100194
- Groove Grove de Kevin MacLeod. Fonte: http://incompetech.com/music/royalty-free/index.html?isrc=USUAN1200054
- Chill - Disco Ultralounge de Kevin MacLeod. Fonte: http://incompetech.com/music/royalty-free/index.html?isrc=USUAN1100375
- Candlepower de Chris Zabriskie. Fonte: http://chriszabriskie.com/divider/